22 de agosto de 2011

Energia do Pensamento-Por João Fidélis de Campos Filho

Imagine um mundo onde muitas das ações desenvolvidas pela energia elétrica sejam substituídas pela “energia do pensamento”. Não leitor, não digitei a frase errada. Esta e outras idéias avançadas estão presentes numa deliciosa obra de um cientista brasileiro pouco conhecido pela maioria da nossa população, mas que tem sido citado com freqüência entre os candidatos ao premio Nobel de medicina, pela comunidade cientifica internacional. Seu nome é Miguel Nicolelis e suas pesquisas na Universidade Duke (USA) têm surpreendido a todos no campo neurocientifico.

Nestes últimos dias li com imenso prazer o livro “Muito Além de Nosso Eu”, enviado por um amigo com fartas recomendações. Foi uma obra lançada com muita expectativa na última FLIP (Festival Literário de Paraty), com a presença do autor que fez uma palestra sobre seus estudos do cérebro.

Nicolelis escreve de maneira acessível ao leitor não afeito aos termos científicos, apesar de tratar de teorias complexas sobre a atuação de cadeias de neurônios nas inúmeras ações que norteiam a vida humana. E seu estilo é cativante, prende a atenção e a curiosidade do leitor, por focalizar assuntos que realmente despertam o interesse de todos e os obriga a pensar de maneira inteligente e simples.

Achei interessante como Nicolelis tentou demonstrar que os sentimentos produzem intempestivas alterações nas células corticais do cérebro e como as relações afetivas podem ocasionar mudanças positivas ou negativas de acordo com o curso dos acontecimentos da vida individual. No caso do amor, uma afeição mais forte e profunda, o autor afirma que as pesquisas comprovam que as mudanças cerebrais são de tamanha dimensão que se tornam difíceis de dissipar porque se tornam parte contínua do córtex. A imagem da pessoa amada se torna quase onipresente ou parte integrante do eu e dificilmente se esvai. Por isso a sabedoria popular diz que o amor de verdade nunca se esquece.

Quanto à força do pensamento Nicolelis e sua equipe estão trabalhando incansavelmente para provar sua veracidade e freqüência nas ações mais comuns do dia-a-dia dos seres humanos. E prevê um uso consciente da força do pensamento na próxima década. Toda a energia que hoje a humanidade usa de forma instintiva ela usará de maneira racional daqui a algum tempo. Ele diz: “Nesse futuro, sentado na varanda de sua casa de praia, de frente para seu oceano favorito, você um dia poderá conversar com uma multidão, fisicamente localizada em qualquer parte do planeta, por meio de uma nova versão da internet (a “brainet”), sem a necessidade de digitar ou pronunciar uma única palavra. Nenhuma contração muscular envolvida. Somente através de seu pensamento”. Utilizando uma macaca, cujas atividades cerebrais estavam interligadas a um robô no Japão através de computadores, Nicolelis sugeriu que ela movesse os braços do robô para posições diferentes e ela obedecendo à ordem fez os movimentos corretamente. Ou seja, o robô obedeceu à força do pensamento do primata.

Outra faceta deste neurocientista que sugere que não estamos somente diante de pesquisador frio e calculista como grande parte de seus pares, é sua capacidade de simulação futurista, a sua imensa imaginação e visão prognostica dos efeitos dos estudos das funções cerebrais. Ele afirma: “como você se sentiria caso lhe fosse dado acesso a um banco de memórias de seus ancestrais remotos, de modo que pudesse, num mero instante, recuperar os pensamentos, emoções e recordações de cada um desses seus entes queridos, criando assim, por meio de impressões e sensações vividas, um encontro de gerações que jamais seria possível de outra forma? Exemplos como esses oferecem apenas uma pequena amostra do que será viver num mundo muito além das fronteiras do nosso eu, um mundo onde o cérebro humano se libertará, enfim, de sua sentença de prisão de milhões de anos, cumprida, desde tempos imemoriais, numa cela orgânica constritiva e limitada, vulgarmente conhecida como corpo”. Não é muita viagem?

Nicolelis sustenta que o pensamento são atividades elétricas do cérebro que influenciam o meio externo e também recebem esta corrente deste meio, dessa forma as pessoas que perderam os movimentos devido às lesões da medula espinhal continuam a pensar que podem locomover-se e, com a ajuda da tecnologia robótica, conseguirão realizar novamente certos movimentos através da força do pensamento.

Ao terminar o livro de Nicolelis a impressão predominante é de que os estudos do cérebro ainda reservam inúmeras surpresas que certamente dirimirão muitas dúvidas que acompanham a humanidade. Uma delas, talvez a principal seja a seguinte: será que a alma comanda as ações do cérebro? Em caso positivo, como ela atua? O futuro dirá?

João Fidélis de Campos Filho- Cirurgião-Dentista


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