12 de fevereiro de 2011

Arte Conceitual

João Fidélis de Campos Filho

Ser sensível ás coisas belas e indiferente ás negativas e de mau gosto é uma boa receita anti-depressão nesta corrida contra o tempo que se transformou o mundo atual. Isto significa que a total ausência/indiferença proposta pelos hindus não é exatamente uma boa escolha, pois cria uma sociedade individualista, egoísta e sem valores éticos e morais. Recebi uma matéria enviada por um querido amigo da jornalista Márcia Tiburi cujo título é “A Arte Enlutada” que é uma bela análise dos descaminhos do movimento artístico contemporâneo. A visão de uma era de conflitos por autodeterminação, direitos de minorias, guerra por matérias primas e inserção social de uma população mundial que aumenta dia a dia, leva a arte a refletir toda esta situação, transmitindo ao interlocutor toda esta energia.

Márcia fala de uma arte que provoca, sem limites do bom senso, por isso às vezes apelativa. A seu ver esta arte exalta o feio e provoca até asco em quem a vê. Mas há dois ingredientes que a autora não cita ou esquece em sua abordagem que soa importantes na sua análise, que são a predisposição da mídia em penetrar na grande população e vender seu peixe através do sensacionalismo e da supervalorização do lado negativo das noticias da nossa realidade. A tragédia da vida comum ascende ao primeiro plano suprimindo largamente o belo e as boas coisas da vida humana. O artista Damien Hirst expõe bezerros e tubarões em formol; na Bienal de São Paulo urubus são colocados em um cercado e mostrados como forma de provocação. Esta chamada “arte conceitual” deve realmente ser vista como arte?

Em meados do mês passado o neurocientista canadense Mario Beauregard esteve no Brasil para lançar seu livro: O cérebro espiritual – Uma explicação neurocientífica para a existência da alma (Editora Best Seller) no qual defende a tese que a consciência humana (ou a mente, ou a alma), é uma entidade separada dos “meros mecanismos cerebrais”. E as manifestações artísticas estão incluídas nesta forma de extravasar da alma. Segundo autor: “a idéia central do materialismo consiste em que tudo o que existe tem uma causa material, isto é, uma causa governada pelas forças da natureza tais como compreendidas pela física clássica. Segundo o materialismo, a consciência e o espírito (quer dizer, os processos mentais) não podem existir independentemente do cérebro; e a crença numa vida após a morte seria absurda. Além disso, todas as crenças e experiências referentes a Deus e a mundos espirituais seriam fruto de superstições ou alucinações; o livre-arbítrio, ainda, seria uma ilusão”. Mas a prova cientifica da existência da alma poria fim a estas especulações. “Para mim, a alma é o princípio pensante de toda entidade dotada de vida” diz o autor canadense. Beauregard reafirma que a arte não é um produto material, pois se assim o fosse nunca seria criativa. Ela é uma expressão individual e única porque vem do inconsciente (a alma).

Se a alma é um celeiro de memórias do mundo atual e da história humana, que o homem traz consigo quando nasce (geneticamente ou não), toda vez que ele cria algo novo, utilizando a intuição, a imaginação, o sentimento e o raciocínio, ele está produzindo arte. Contudo qualquer maneira de representação reflete o estado de espírito de quem cria. Assim sendo a arte conceitual passa a ser produto não só de um tempo em que o sensacionalismo tornou-se um objeto de consumo, mas também dos fatores psicológicos que influenciam o autor e sua visão da realidade. O abstracionismo que domina a arte contemporânea não é em si um reducionismo em relação aos movimentos artísticos anteriores porque o essencial está em tudo que o artista transmite e na percepção do espectador.

João Fidélis de Campos Filho- Cirurgião-Dentista

http://jofideli.blogspot.com/

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