7 de abril de 2013

UMA VELHA E UM CAOLHO

Uma declaração descuidada do presidente uruguaio José Mujica, a respeito de sua colega argentina e seu antecessor e falecido esposo, revoltou a família Kirchner e abalou as relações diplomáticas entre os dois países vizinhos.
Pensou alto o velho Mujica: “Esta velha é pior que o caolho”.
A frase caiu como uma bomba, após vazar por uma página da web, criando um desconforto e um corre-corre de delegações imbuídas em apagar a fogueira de um pensamento vago, até então oculto nos porões do inconsciente (não apenas de um, mas de muitos). No dia seguinte o uruguaio apenas acrescentou: “Nada, nem ninguém, pode apagar nossa história”. Referia-se, é claro, à histórica relação de amizade entre os dois países. Não entre os dois governantes.
Tirando a gafe e as questões preconceituosas da terminologia usada, eis que o incidente é um excelente manancial de reflexões, tanto quanto o é no confronto de muitas verdades ocultas. Há mais sabedoria numa frase impensada do que naquelas construídas sob as arestas de nossos interesses e posições que ocupamos. Pobres aqueles que dizem o que realmente pensam. Ou pensam muito e dizem pouco. O próprio Mujica deixou escapar em seu celebre discurso na Rio+20: “Pobre não é aquele que tem pouco, mas aquele que necessita de muito”. Entre uma frase e outra, uma única verdade: Pobres somos nós, que mantemos nossas “velhas opiniões formadas” sob o clivo do vesgo olhar da opinião alheia. Dizer verdades pode ferir, magoar. Então me calo, me omito.
Esse é o ponto. Quem nunca se omitiu nesse aspecto? Muitas das nossas gafes acabam sendo positivas, pois provocam a verdade e estampam na conduta do outro uma necessidade de rever suas posições, seu comportamento. Apesar do clima de insatisfação e total indignação provocado por opiniões contrárias à nossa, são elas que muitas vezes nos curam de uma cegueira comportamental. Quantos caolhos e cegos ainda guiam outros piores! Quantos ensinam o pai nosso aos vigários – no caso a presidente ensinando ao Papa argentino como usar uma cuia de chimarrão – e não enxergam o ridículo dum ato impensado. Eis então que o subconsciente de uma voz ao lado nos desperta para a realidade, porque nossa verdade não é absoluta.
O pensamento político-social está bem enraizado na mentira. “Uma mentira repetida mil vezes pode soar como verdade”. Esse fundamento assaz contraditório está presente em todo e qualquer veículo publicitário, especialmente aqueles que vendem uma ideologia político-partidária. Em nada difere dos padrões do comportamento social, onde prevalecem as aparências e não a verdade do indivíduo. Enganar as pessoas, com o fim de galgar posições e status, para muitos é sinônimo de esperteza, nunca mentira nua e crua. Dizer verdades, então, é quase um ato de suicídio, que a “velha” cantilena das condutas político-sociais desaconselha sempre. É um dos trunfos de vitórias certas. Se preciso, diga meia verdade... uma verdade caolha. Nunca diga tudo o que sabe ou pensa. Tudo que viu ou vê. Deixe sempre uma carta na manga. Esse é o jogo, o trunfo do sucesso humano. Essa é a verdade que temos vergonha de assumir.

E a verdade cristã? Na simplicidade de seus ensinamentos, a única pergunta deixada sem resposta por parte de Cristo foi exatamente esta: “Afinal, o que é a verdade?”. Seu silêncio e suas atitudes falaram mais alto. Ele mesmo já havia se manifestado como a própria Verdade. Certamente, a cegueira do poder não permitiria a Pilatos a compreensão de qualquer resposta, mesmo que essa viesse da boca de Jesus. Mesmo assim, diante de polêmica semelhante, um dia encurralaram o Mestre com uma questão que lhe poderia causar embaraços com a política vigente: “A quem devemos oferecer nossos tributos?” Qual a verdade de nossa obediência: Deus ou os homens? “A Cesar o que é de Cesar e a Deus o que é de Deus”. Não o surpreenderam em nenhuma mentira, mas, “admirados de sua resposta, calaram-se” Porque a verdade dói.
WAGNER PEDRO MENEZES wagner@meac.com.br

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